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Escrito por Carla Pontes Donnamaria
É possível também perceber que a sociedade, de alguns anos para cá, tem estado mais tolerante em relação às rupturas conjugais. Sem entrarmos na discussão se isso seria reflexo de uma degradação dos valores ou uma conquista dos cônjuges pelo direito à liberdade, existe o fato de que muitos que dizem sentir seu vínculo ameaçado, ou que até já teriam optado pela ruptura do relacionamento, alegam, por exemplo, o desejo de recuperar a individualidade.
No entanto, o que muitas vezes vem sendo chamado de individualidade, na verdade, tem muitos traços particulares, que variam bastante caso a caso. Por outro lado, é importante notar e poder refletir sobre as transformações da sociedade que se repercutem de forma comum sobre os casais contemporâneos. Por exemplo, enquanto aos nossos pais, ou aos nossos avôs, bisavôs, era dito que ao homem cabia prover o lar, e à mulher os cuidados da casa e dos filhos, hoje o que há é uma defesa comum pelo direito de escolha.
Poderíamos pensar, então, que haveria uma dificuldade no exercício da liberdade de escolha, daí a instabilidade dos vínculos? É possível, mas nem sempre é isso. Ocorre que apesar de qualquer casal apreciar o seu direito de escolha, os nossos valores mais íntimos não se transformam na velocidade das transformações exteriores. Daí, por exemplo, a culpa de muitas mulheres porque deixou (ou achou que deixou) de cuidar tão bem da casa ou dos filhos porque estava dedicada a sua vida profissional, como se somente a ela coubesse realmente essa responsabilidade; daí às vezes a dificuldade do homem em compartilhar as responsabilidades pelo sustento do lar. Dessa forma também a ideia e a sensação de que o casamento estaria sufocando a individualidade pode ter a ver com esse contraste de valores e expectativas. Afinal, há apenas algumas décadas sequer se questionava individualidade dentro do casamento. Provavelmente soaria um paradoxo.
Assim, para se entender se a almejada individualidade teria, na verdade, a ver com essa possível luta interna entre velhos e novos valores, é preciso, antes de tudo, que os cônjuges tomem consciência dessas diferenças e das transformações da sociedade e possam identificar de que maneira elas estariam refletindo na sua própria vida conjugal, e trazer isso para aquele velho exercício do qual nenhum casal deve fugir: dialogar, sempre.
Dra. Carla Pontes Donnamaria é psicóloga mestre e doutoranda em Psicologia Clínica pela PUC-Campinas.